A gente é o que a gente come?

A gente é o que a gente come?

Por Gabriela Pegurier

É impressionante quanto se pode especular sobre as pessoas, apenas observando o que elas colocam dentro de seus carrinhos de supermercado ou eventualmente retiram da esteira no último minuto. Confesso: meu passatempo predileto – enquanto espero minha vez no caixa – é analisar a compra alheia. Uma mania que pode acometer meu ser numa terça-feira de manhã enquanto faço compras da semana, em outro dia qualquer na volta do trabalho, quando dou só aquela passadinha para pegar um “sei lá o quê” que ficou faltando para o jantar ou num sábado de madrugada voltando de um programa com amigos e me lembro que falta leite para o café de domingo.

Outro dia, lá estava eu em pé faziam 15 minutos, esperando pacientemente a caixa-nova-em-treinamento terminar de empacotar sozinha uma compra imensa, quando me peguei rindo sozinha ao bater o olho nas compras da moça-bonita-mas-irritadiça antes de mim na fila. Não contive o riso ao tentar contabilizar quantas horas de corrida ela teria de enfrentar pra queimar as calorias dos 1001 chocolates que lotavam sua cesta – provavelmente porque precisasse amenizar a TPM que lhe torturava naquele dia. Em solidariedade, quase abri meu pacote de biscoito recheado Bonno ali mesmo para lhe oferecer uma gordura trans direto da fonte. Mas, acabei desistindo ao olhar para o rapaz-triatleta-boa-pinta atrás de mim. Ele equilibrava nos braços sarados: um saco de aveia Quaker, outro de granola, quatro iogurtes e um cacho de bananas. Haja saúde!

Não para por aí… Sábado passado, acredite, cheguei até a romantizar um possível jantar à luz de velas no chão de um apartamento vazio para um casal apaixonado que vi no supermercado. Passava da meia-noite e eles estavam ali no caixa, provavelmente preparando-se para passar a noite saboreando uma massa a dois. Enquanto eu comprava leite semi-desnatado e assistia ao filminho deles na minha cabeça, eles passavam na esteira um maço de espaguete importado, um vidro de molho ao sugo italiano, um pão caseiro, um belo pedaço de parmesão e excelente vinho tinto.

Já ontem à tarde a caminho de casa, tive que dar um pulo lá de novo para pegar umas coisinhas e acabei estarrecida com as escolhas exageradas de uma madame que fazia suas compras também. Nitidamente ela fazia aquela linha de quem tem ojeriza de pisar na cozinha. Seu carrinho de compras – empurrado por alguém que parecia ser um motorista particular – estava abarrotado até o topo de produtos industrializados, dos mais variados possíveis e caros imagináveis. Em contraponto, o comedimento e frugalidade do senhorzinho que aguardava humildemente sua vez na fila ao lado, me deu inveja… Apenas o suficiente para abastecer seu corpo na medida exata de sua fome.

Voyeurismo à parte, gosto de descrever essas minhas pequenas invasões de privacidade no consumo alheio, como uma forma de estudo antropológico particular. Seja numa casa gourmet como o Santa Luzia ou num mercadinho de bairro no litoral, acabo sempre conseguindo alimentar minha imaginação e saciar minha curiosidade sobre o comportamento humano com o que os outros me servem.

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